O cacau da Será Cacau não cresce numa plantação. Cresce dentro de uma floresta que tem mais de 250 anos de história — e mais de 250 espécies nativas convivendo com ele. Isso se chama Cabruca.
Tem uma pergunta que eu escuto muito — de clientes, de jornalistas, de pessoas que encontram a Será Cacau pela primeira vez: "Mas de onde vem esse cacau?"
A resposta curta é: da Mata Atlântica, no sul da Bahia. A resposta real é mais bonita que isso.
O nosso cacau cresce dentro de um sistema agroflorestal chamado Cabruca — uma forma de cultivar cacau que existe nessa região há mais de 250 anos. Na Cabruca, ninguém derruba a floresta pra plantar. O cacau cresce na sombra das árvores nativas da Mata Atlântica, debaixo da copa original. A floresta fica de pé. O cacau cresce dentro dela.
Eu moro em Serra Grande, na Costa do Cacau, há mais de uma década. Meu filho nasceu aqui. É aqui que a Será Cacau nasceu também. E uma das coisas que eu aprendi morando nessa terra é que o sistema Cabruca não é apenas um método de plantio — é uma filosofia inteira sobre como se relacionar com a floresta sem destruí-la.

Como funciona a Cabruca
O princípio é simples e profundo ao mesmo tempo.
Na agricultura convencional de cacau — a que domina a Costa do Marfim, Gana e grande parte da produção mundial — a floresta é derrubada, o solo é exposto, e o cacau é plantado em monocultura a sol pleno. O resultado: produtividade alta por alguns anos, seguida de esgotamento do solo, perda de biodiversidade e dependência de pesticidas.
Na Cabruca, o caminho é o oposto. O sub-bosque da floresta nativa é limpo, a copa é levemente raleada pra permitir a entrada de luz, e os cacaueiros são plantados embaixo — na sombra das árvores que já estavam ali. O cacau ocupa o andar de baixo. A floresta ocupa o andar de cima. Os dois convivem.
O resultado não é apenas um método de cultivo. É um ecossistema funcional.

O que vive dentro de uma Cabruca
Quando eu digo que o nosso cacau cresce dentro de uma floresta, não é metáfora. Estudos científicos documentaram mais de 250 espécies nativas convivendo dentro de sistemas Cabruca no sul da Bahia — árvores, samambaias, bromélias, morcegos, aves, mamíferos, anfíbios, borboletas e insetos. Uma pesquisa que inventariou 16 fazendas na região encontrou altos níveis de diversidade arbórea, com a maioria das espécies sendo nativas da Mata Atlântica.
Entre os moradores da Cabruca está o mico-leão-de-cara-dourada — um primata que só existe nessa região do mundo e que depende desses fragmentos florestais pra sobreviver. A Cabruca funciona como corredor ecológico: conecta os pedaços de Mata Atlântica que ainda restam, permitindo que as espécies se movam entre eles.
É por isso que a gente diz que o nosso cacau cresce na Mata Atlântica — não no lugar dela.

250 anos de história numa terra complicada
A história do cacau na Bahia começa em 1746, quando as primeiras mudas foram plantadas na região de Canavieiras. O sistema Cabruca se desenvolveu ao longo dos séculos seguintes como uma resposta prática ao que a terra pedia: o cacau precisa de sombra, e a Mata Atlântica oferecia a sombra perfeita.
Eu não vou romantizar essa história. O cacau na Bahia também tem uma história de trabalho forçado, de concentração de terras, e de ciclos de riqueza e miséria que marcaram gerações. A crise da vassoura-de-bruxa nos anos 1990 devastou a região: a produção caiu de 458 mil toneladas em 1986 pra 170 mil em 2003. Fazendas foram abandonadas, árvores nativas de alto valor foram derrubadas ilegalmente, e muita gente perdeu tudo.
O que sobreviveu — e o que está renascendo — é justamente o sistema Cabruca. Porque quando você cultiva dentro da floresta, a floresta te protege de volta. A umidade natural do sistema Cabruca ajuda a controlar a vassoura-de-bruxa. A biodiversidade do solo mantém a terra fértil sem insumos sintéticos. A sombra regula a temperatura.
A Cabruca não é eficiente no sentido industrial. A produtividade por hectare é mais baixa do que na monocultura. Mas é resiliente. E resiliência, num mundo que está mudando de clima, vale mais do que eficiência.

A Cooperativa CABRUCA: quem faz o nosso cacau
O cacau da Será Cacau vem da Cooperativa CABRUCA — Cooperativa dos Produtores Orgânicos do Sul da Bahia, com sede em Ilhéus, no coração da região cacaueira.
A cooperativa foi fundada em 2001 e hoje reúne produtores dedicados ao cultivo orgânico e biodinâmico de cacau no sistema Cabruca. A área combinada dos cooperados ultrapassa 4.000 hectares, dos quais cerca de 3.000 hectares são sistemas agroflorestais. Incluindo familiares, funcionários e prestadores de serviço, a comunidade atendida pela cooperativa envolve mais de 1.000 pessoas.
Cada lote de cacau que sai da cooperativa é rastreável — da fazenda até a sua xícara. Os padrões de qualidade são controlados internamente, e a maior parte da produção é de cacau fino, o que representa apenas 3% da produção nacional brasileira.
Recentemente, o cacau do sul da Bahia recebeu a Indicação Geográfica (IG) Sul da Bahia — um reconhecimento que valida a origem e a qualidade do produto, garantindo que foi cultivado de forma sustentável no sistema Cabruca.
Tree to bar: o que isso significa na prática
A maioria das marcas de chocolate artesanal se define como "bean to bar" — da amêndoa até a barra. A Será Cacau vai um passo antes: somos tree to bar. Da árvore até a barra.
Isso significa que a cadeia inteira fica no Brasil: o cacau cresce na Cabruca, é colhido à mão, fermentado, seco, e processado aqui. Não há intermediários internacionais. Não há container cruzando o oceano pra ser processado na Europa e voltar como produto acabado. O valor fica na terra onde o cacau nasceu.
Quando você abre um vidro de Gotas de Será Cacau, cada gota é rastreável até a cooperativa que a produziu. 1 Gota = 1 grama. Nada adicionado, nada removido.

Por que isso importa pra quem está lendo
Se você chegou até aqui, talvez esteja se perguntando: por que eu deveria me importar com o sistema de cultivo do cacau que eu compro?
Porque a maioria do cacau do mundo vem de monoculturas que destruíram florestas tropicais, empobrecem o solo, e pagam mal os produtores. Quando você escolhe um cacau cultivado em Cabruca, você está financiando a manutenção de uma floresta viva — com suas árvores nativas, seus animais, seus corredores ecológicos, sua capacidade de sequestrar carbono.
Não é uma certificação. É um ecossistema fazendo o que ecossistemas fazem — porque alguém decidiu não derrubar ele.
"Nosso cacau cresce na Mata Atlântica. Não no lugar dela."
Leve a floresta pra casa
As Gotas de Será Cacau estão disponíveis na nossa loja online — 105g, 210g e 1kg. Cacau 100% orgânico, Cabruca, tree to bar, processado por mãos brasileiras em Serra Grande, Bahia.
Se você quer entender mais sobre como preparar o cacau puro, leia o nosso post sobre.
E se essa história te tocou, compartilha. A Cabruca merece ser conhecida.

